Certamente a maioria dos
goleiros prefere trabalhar o mínimo possível durante os jogos. Como toda regra
tem exceção, o ex-goleiro Manga contrariava a lógica. Preferia ser bombardeado
com arremates e cabeceios de adversários para praticar defesas. E que defesas! E
quando os adversários não finalizavam contra o seu gol ficava irritado.
O pernambucano Aílton Correa Arruda, apelidado
de Manga e Manguita para os íntimos, rosto marcado pela varíola, foi imbatível no
quesito longevidade no Brasil. Jogou profissionalmente até os 45 anos de idade,
de 1957 a
1982. Magro, alto, mãos enormes, e com invejável impulsão, contorcia o corpo no
ar para espalmar a bola. Talvez por isso desafiava cartolas a se
responsabilizarem por pagamentos de dívidas caso fechasse o gol. Naturalmente
os credores do goleiro agradeciam.
Manga assinou contratos com valores razoáveis
nas passagens por Sport (PE), Botafogo, Nacional do Uruguai, Inter (RS),
Coritiba, Grêmio, Operário (MS) e Barcelona de Guayaquil do Equador até 1982,
quando encerrou a carreira. O problema é que gastava mais de que ganhava. Torrava
bolada considerável em jogos de sorte e azar, e depois precisava correr atrás
do prejuízo.
Seja como for, aos 78 anos de idade completados
no dia 26 de abril passado, ainda não garantiu uma aposentadoria tranqüila. Por
isso voltou a fixar residência no Equador. Lá dá palestras para garotos de
categorias de base e recorda sua longevidade no futebol. Ele já passou dois
anos na Flórida, nos Estados Unidos.
Manga gaba-se de ter sido campeão juvenil pelo
Sport sem sofrer um gol sequer em 1954. Comenta os bons tempos de Botafogo ao
lado de jogadores consagrados como Nílton Santos, Garrincha, Quarentinha,
Amarildo, Didi e Jairzinho, uma patota que levantava canecos rotineiramente e
vivia excursionando para a Europa.
Folclórico, provocava flamenguistas às
vésperas do clássico com bordões do tipo ‘o leite das crianças está garantido’,
ou ‘já gastei o bicho da vitória contra eles’. Tudo ia bem até a final do
estadual contra o Bangu em 1967, com vitória botafoguense por 2 a 1. O jornalista João
Saldanha (já falecido), torcedor confesso do ‘Fogão’, acusou-lhe de ter sido
subornado por Castor de Andrade (já falecido), patrono do Bangu, e o desdobramento
da história foi ameaça de arma de fogo contra o goleiro, que posteriormente
teve que se desligar do clube.
Até 1973 Manga ficou no Uruguai. Transferiu-se
posteriormente para o Inter e sagrou-se bicampeão brasileiro em 1975/76 ao lado
de jogadores como Batista, Falcão, Marinho Perez, Valdomiro e Dadá Maravilha.
Ele teve passagem negativa na Seleção
Brasileira. Cometeu falha grotesca no gol de Simões, na vitória de Portugal por
3 a 1
sobre o Brasil, na Copa do Mundo de 1966, com eliminação brasileira ainda na
primeira fase.
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