A rivalidade entre clubes de futebol da
capital paulista há cinco décadas resultava em episódios inacreditáveis. Vésperas
de um jogo contra a Portuguesa, o ex-goleiro Cabeção, do Corinthians, foi
afastado do time só porque levou a esposa a um médico de sua confiança, que,
por capricho, era torcedor luso.
Suspeitaram que ele entregaria aquele jogo, e
aquilo o irritou profundamente. “Nunca mais vestirei essa camisa (a do
Corinthians)”, prometeu e cumpriu enquanto atleta, pois voltou ao Parque São
Jorge como treinador das categorias de base e foi até interino da equipe
principal, além de continuar sócio remido do clube aos 84 anos de idade.
Luís de Moraes, o Cabeção, foi revelado nos aspirantes
do Corinthians em 1949 e sua carreira se estendeu até 1966, com passagens por
Bangu (RJ), Portuguesa e Comercial de Ribeirão Preto (SP). Sua principal
virtude foi a boa colocação.
Ele participou da Seleção Brasileira na Copa
do Mundo da Suíça em 1954, ocasião em que o selecionado foi atropelado pela
Hungria do atacante Puskas por 4
a 2, e eliminado. Eis o time brasileiro: Castilho;
Djalma Santos e Nilton Santos; Brandãozinho, Pinheiro e Bauer; Julinho, Didi,
Baltazar, Pinga e Rodrigues. O técnico Zezé Moreira (falecido) havia convocado
três goleiros: Castilho - o titular -, Cabeção e Veludo.
Para espanto geral, a favorita Hungria perdeu
aquela final para a Alemanha por 3
a 2, de virada. Após marcarem dois gols em oito minutos,
os húngaros foram surpreendidos.
Para compensar a frustração da perda daquela
Copa, Cabeção comemorou, naquele ano, o título do ‘IV Centenário’ da cidade de
São Paulo pelo Corinthians, num time que tinha um ataque infernal: Cláudio
(gerente), Luizinho (pequeno polegar), Baltazar (cabecinha de ouro), e Carbone
(cavador). Na sequência foi reserva de Gilmar no Timão.
Cabeção usava acolchoados protetores na
lateral do calção, na região peitoral para amortecer o impacto da bola, e nos
cotovelos. A joelheira era obrigatória, mas as luvas dispensáveis. O primeiro
goleiro a usar luvas foi o argentino Carrizo, na década de 40.
Cabeção tinha o hábito de cuspir nas mãos para
umedecê-las e, assim, facilitar o contato com a bola. Gostava de fazer ‘ponte’
em bola cruzada e usava as tradicionais camisas pretas ou cinzas de mangas
compridas, típicas de atletas da posição. Foi o então goleiro Raul Plasmmann
quem inovou camisas coloridas ao vestir uma camisa amarela no time do Cruzeiro,
na década de 60.
Com a transferência de Gilmar para o Santos em
1962, Cabeção reassumiu a posição no Corinthians com a tradicional
regularidade. Ele foi um goleiro de estatura média, natural para época que se admitia
goleiro de baixa estatura como o argentino José Poy do São Paulo, com 1,72m de
altura. Isso contrasta com os goleiros grandalhões de hoje.
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