quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ditão, o zagueiro limpa área

Zagueiro sem velocidade perdeu espaço no futebol moderno, contrastando com “beques” lentos do passado, cuja condição essencial era a boa compleição física. Outras décadas, a ‘treinadorzada’ priorizava zagueiros com caixa torácica avantajada, porque o uso do corpo no contato físico era tido como imprescindível na tentativa de evitar o drible.

Nesse contexto estava Ditão (já falecido), que marcou época na Portuguesa e Corinthians na década de 60. Geraldo de Freitas Nascimento, cujo nome nada tinha a ver com o apelido, nascido em 10 de março de 1938, integrava uma família de atletas. Seu irmão Gilberto de Freitas Nascimento, também apelidado de Ditão, igualmente jogou na zaga central, no Flamengo. Outro boleiro da família foi Flávio, zagueiro de poucos recursos que não prosperou na carreira jogando pelo Bragantino (SP). Adílson – já falecido -, único dos irmãos a enveredar para o basquete, fez sucesso no Corinthians e Seleção Brasileira.

Ditão foi o típico zagueiro limpa área. Era um brutamonte de tronco largo e pernas finas que ganhava a maioria das jogadas com o uso do corpo, sem violência. Jamais foi expulso de campo ao longo da carreira iniciada na Portuguesa, período em que atuou ao lado de Félix, Jair da Costa e Servilio, em 1962. Também valia-se da boa estatura e posicionamento.

Transferiu-se ao Corinthians juntamente com o meia Nair em 1966, e formou dupla de zaga com Luís Carlos durante quatro anos. No primeiro ano de Timão jogou com Heitor, Jair Marinho, Dino Sani, Édson Cegonha, Mané Garrincha, Nair e Flávio, entre outros. Em 1969, no jogo em que o Corinthians venceu o Cruzeiro por 2 a 0, foi despachar a bola que, involuntariamente, atingiu o rosto de Tostão. Houve deslocamento da retina do olho do cruzeirense, que, anos depois, teve que abandonar o futebol.

Ditão era um jogador mudo. Só soltava o vozeirão na roda de amigos, na cerveja. Era mulherengo, porém tímido. Certa ocasião, após jogo do combinado paulista de veteranos, um amigo o sacaneou numa bem arquitetada brincadeira, ao combinar com uma amiga para que flertasse o zagueiro. E quando ela avançou na investida e Ditão projetou que pudesse conquistá-la, ela sacou o revólver e mirou na direção dele, que tremeu na base, enquanto os amigos ‘caíram’ na gargalhada.

Numa época em que raras vezes um zagueiro ultrapassava o meio de campo, Ditão se projetava na área adversária em cobranças de escanteios, a partir dos 35 minutos do segundo tempo, para tentar o gol de cabeça. De vez em quando decidia partidas, como em 1968 na virada sobre o Palmeiras por 2 a 1.

Com a chegada de Baldocchi ao Corinthians em 1971 foi para a reserva. Desanimado, deixou a bola. E em 1994, divorciado e vivendo sozinho, morreu em Guarulhos, vítima de ataque cardíaco quando estava no banheiro.





terça-feira, 29 de março de 2011

Danrlei, campeão de votos


Em 2007, dois anos antes do encerramento da carreira no futebol, o goleiro Danrlei, na época vinculado ao modesto E.C. São José de Porto Alegre (RS), se identificou como pessoa autêntica: “Se não gosto da pessoa, não consigo falar com ela; se eu gosto, morro por ela. Não consigo ficar sorrindo para quem não gosto”.

Danrlei de Deus Heinterholz ficou marcado como ídolo do Grêmio portoalegrense porque se superava em grenais e falava exatamente aquilo que pensava, independentemente de agradar as pessoas. Resta saber se agora que trocou o uniforme de atleta pelo terno e gravata dos políticos vai manter a postura. Dos ex-jogadores postulantes a cadeira na Câmara Federal na última eleição, Danrlei foi o mais bem votado com 173.787 votos dos eleitores gaúchos, número que também o colocou na quarta colocação entre candidatos a cargos legislativos do Estado do Rio Grande do Sul.

Danrlei se abrigou na sigla do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), criada sob inspiração do então presidente da República Getúlio Vargas em 1945, na época de forte tradição trabalhista, e hoje nem tanto. Independente de filosofia partidária, um dos desafios do ex-goleiro é desmistificar o pensamento do escritor luso Eça de Queiroz, ainda no século XIX: “Políticos e as fraudas são semelhantes. Possuem o mesmo conteúdo”. Ou provar que o pessimismo do escritor britânico Plilip Chesterfield no século XVIII não se aplica aos dias de hoje: “Os políticos não conhecem nem ódio, nem amor. São conduzidos por interesse e não por sentimento”.

O tempo dirá qual será o comportamento de Danrlei. O indesmentível é que ele foi goleiro a nível de Seleção Brasileira nos primeiros dez anos de carreira. Passou pelo Grêmio entre 1993 a 2003, quando conquistou a Libertadores da América, Copa do Brasil, Recopa sul-americana e Campeonato Gaúcho.

Em 2004, aos 31 anos de idade, sem a típica regularidade, iniciou o processo de repasse de clubes: Fluminense, Beira-Mar de Portugal, São José (RS) e Brasil de Pelotas, clube onde guarda a mais triste recordação no futebol. O ônibus que conduzia a delegação do clube no anel de acesso à BR-392 caiu num barranco e três ocupantes morreram: Giovani Guimarães, preparador de goleiros; Régis Gouveia, zagueiro; e o atacante uruguaio Claudio Millar.

Foi jogando também pelo Brasil que se envolveu em confusão generalizada no jogo contra o Ulbra. Conseqüência: suspensão de 120 dias. E foi em Pelotas seus últimos passos como jogador de futebol. Depois veio a despedida oficial em Porto Alegre no dia 12 de dezembro de 2009, com registro de 30 mil pessoas no Estádio Olímpico.

O ex-goleiro completa 38 anos de idade neste 18 de abril e a sua trajetória é contada em detalhes no livro ‘Danrlei, uma Lenda Gremista’, escrito pelo jornalista Eliziário Goulart Rocha.

terça-feira, 22 de março de 2011

Hidalgo, do gramado ao rádio

Quando ex-jogadores de futebol começaram a ocupar o mercado de trabalho de radialistas e jornalistas que comentam futebol nas mídias eletrônicas houve denúncia a sindicatos das categorias de invasão de espaço, mas legalmente não havia mecanismo de proibição de quem conseguiu registro emitido pela DRT (Delegacia Regional do Trabalho) para desempenhar a função. Se ex-boleiros nem sempre conseguem articular bem as idéias, compensam com conteúdo. Ao vivenciarem múltiplas situações opinam, na maioria das vezes, fugindo do óbvio.

José Hidalgo Neto, um dos primeiros ex-boleiros a empunhar microfone no rádio brasileiro, reúne o útil ao agradável na crônica esportiva paranaense. Concilia a dádiva da oratória a correta leitura do jogo. Afinal, esteve no gramado e aprendeu nos 15 anos de carreira como jogador as conceituações técnicas, táticas e de bastidores do futebol.

Hidaldo foi médio-volante nos tempos em que exigia-se eficiência no desarme e bom passe para desempenhar a função. Ele fez isso nos cinco anos de C.A. Juventus a partir de 1960, repetiu quando integrou o XV de Piracicaba no acesso à divisão de elite do futebol paulista em 1967, e principalmente de 1970 a 1975 na passagem pelo Coritiba, coroada com o pentacampeonato paranaense.

A boa estatura permitiu que se juntasse aos zagueiros de seu time quando o adversário atacava e alçava bola, visando devolvê-la de cabeça. Não era rápido e raramente arriscava arremates ao gol, o que justifica o histórico de 13 gols na carreira. A compensação era a liderança em campo com a braçadeira de capitão.

Hidalgo era companheirão e irônico. As vezes fingia dominar o idioma francês e enrolava a língua para falar. No entanto seus companheiros só flagraram a lorota quando o Coritiba excursionou à França em 1972. Paradoxalmente um transeunte, ávido por informação, resolveu indagá-lo e aí a ‘casa caiu’.

Essa e dezenas de outras histórias durante trabalho em oito Copas serão contadas no Blog Capitão Hidaldo, em artigos renovados no link ‘Conversa de Arquibancada’, e em rodas de amigos radialistas, profissão que ‘abraçou’ na Rádio Cultura de Coritiba em 1975. Além disso, é um vendedor de publicidade de mão cheia.

O ápice de Hidalgo no rádio foi nos anos 80 na ‘Clube Paranaense’, quando fez dobradinha com o vibrante narrador Lombardi Júnior, já falecido. Também trabalhou nas emissoras Tupi e Record de São Paulo, em 1989 e 1998 respectivamente.

Agora, só vai a São Paulo a trabalho ou para visitar parentes. Ano passado voltou a Piracicaba e saboreou um pintado na brasa na Rua do Porto, ponto da melhor culinária da cidade. Também lembrou da generosidade do comendador Humberto D’Abronzzo, presidente do XV na sua época, porque injetava dinheiro da empresa de caninha Tatuzinho – de propriedade dele – no clube.



segunda-feira, 14 de março de 2011

Rípoli e Eurico: cartolas briguentos

Décadas passadas, no auge de uma comemoração vascaína após vitória sobre o Flamengo, o irreverente ex-presidente cruzmaltino Eurico Miranda destilou todo veneno contra o rival: “Não sei se tenho maior prazer numa relação sexual ou se quando ganhamos do Flamengo”.

Tão ou mais intrigante que o cartola carioca foi o engenheiro agrônomo Romeu Ítalo Rípoli, presidente do XV de Piracicaba (SP) nas décadas de 70 e 80. No acervo de publicações do jornalista piracicabano Cecílio Elias Neto consta que o dirigente extrapolou na Suécia, numa excursão do clube pela Europa e Ásia em 1964. Segundo relato, para impressionar suecos na língua deles, o cartola teria passado uma noite em claro estudando pronúncias das palavras do discurso que preparava, orientado por uma tradutora.

Rípoli adorava aparecer na mídia. Na ausência de fatos relevantes, criava-os. Em 1974, quando o Fluminense abriu negociações para tirar o meia Rivelino do Corinthians, ele convocou a mídia para ‘anunciar’ a pretensão de atravessar o negócio. Na década de 60, esperto, ‘driblou’ o dirigente flamenguista Gunnar Goransson ao empurrar para a Gávea o zagueiro Ditinho, irmão do brutamonte Ditão do Corinthians. Rípoli combinou com o então presidente santista Modesto Roma uma simulação de interesse do jogador para atuar no Peixe e o Flamengo ‘mordeu’ a isca supondo contratar o melhor dos zagueiros da mesma família.

Nos anos 70 Rípoli adotou política de baixos salários e ‘bichos’ altíssimos ao elenco. Assim, mesmo com um time modesto chegou ao vice-campeonato paulista em 1976. O campeão foi o Palmeiras que o derrotou por 1 a 0, gol de Jorge Mendonça.

Rípoli e Eurico tinham em comum prepotência, brigas desnecessárias, fascinação pelo cenário político e o reprovável hábito de enfumaçar ambientes com baforadas. Eurico sempre exibiu charutos, enquanto Rípoli pitava cigarro de palha.

O então deputado federal Eurico ousou bateu de frente até com a Rede Globo de Televisão, ao exibir o logotipo do concorrente SBT nas camisas dos jogadores do Vasco durante transmissão da ‘poderosa’ na final da Copa João Havelange de 2000 contra o São Caetano. Ele também foi criticado em 1997 após jogo do Vasco no Estádio do Maracanã. Ao transportar R$ 62 mil da receita de seu clube para a sua casa, foi interceptado por ladrões que levaram o dinheiro. Ainda foi alvo de processo de cassação de mandato em CPI da Câmara, que culminou com o arquivamento.

Quanto a Rípoli, foi denunciado por sonegação de Imposto de Renda, o que implicou em renúncia da presidência do XV. Posteriormente, ao apresentar defesa, comprovou inocência e foi isentado da acusação. Ele morreu em 1983 aos 66 anos de idade.





domingo, 6 de março de 2011

Futebol também é delas

Quando Erasmo Carlos e a sua mulher Narina compuseram letra e arranjo da música ‘Sexo Frágil’ para retratar a mulher em 1981, a intenção foi contestar a apregoada submissão feminina: “Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda...”

Naquela época a mulher já invadia espaços masculinos, quebrava tabus e provava que a rebeldia de centenas de operárias norte-americanas em 8 de março de 1857 não havia sido em vão. A greve daquelas tecelãs de Nova York reivindicando redução da carga de 16 horas de trabalho por dia foi reprimida com violência. Incendiaram a fábrica e 130 empregadas foram carbonizadas. Claro que a ‘mulherada’ ficou indignada, e posteriormente foi criado o Dia Internacional da Mulher.

E a quantas anda a mulher que chuta bola no país? Em termos de seleção brasileira um bom time. A melhor jogadora do mundo também é daqui, eleita cinco vezes consecutivas. É a meia-atacante Marta que brinda torcedores do Gold Pride de San Francisco, nos Estados Unidos, com o seu talento.

Entre as norte-americanas, cerca de 4,2 milhões estudantes chutam bola, a maioria do ensino fundamental. As universitárias são estimuladas com bolsas de ajuda, cujo teto é de US$ 35 mil por ano. Lá os estádios recebem público significativo naqueles jogos, contrastando com o desinteresse por aqui. São poucas as federações que apóiam a modalidade.

A geração de Marta também serve de espelho para o futebol feminino no Brasil. Nas aulas de educação física do ensino fundamental professores reservam quadras de futsal e bolas para as meninas abusarem do chute de bico. Pena que os educadores não têm aptidão para correção de defeitos primários nos fundamentos de chute, passe, cabeceio e colocação de suas alunas. A rigor, o treinador Zé Duarte, já falecido, teve paciência para ensinar o be-a-bá às garotas da seleção brasileira, ao assumir o desafio em 1995.

Duarte foi o divisor de águas da modalidade. Em 1983, após o Conselho Nacional do Desporto ter revogado a proibição da prática, foi realizado o primeiro campeonato carioca da categoria, que terminou em agressões. O Radar do Rio de Janeiro goleava o Goiás por 5 a 0 quando duas adversárias trocaram tapas e só a goiana Andréia foi expulsa. Aí, o árbitro Jorge José Emiliano, o Margarida, foi encurralado e agredido tanto pela zagueira alviverde Gilda como o massagista do time dela. O troco foi sintomático. O juiz desferiu um soco no rosto de Andréia, e anos depois também socou a jogadora Elaine do Saad de São Caetano do Sul (SP), perdendo espaço na arbitragem. Como homossexual assumido, contraiu o vírus HIV, foi castigado pela Aids, e morreu em 1995 aos 41 anos de idade.

O futebol feminino, que enfrentou a cultura machista com bordões do tipo ‘futebol é pra homem’ e ‘mulher no futebol é sapatão’, felizmente está num outro estágio.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Yashin, goleiro do século

Vladimir Lênin, líder comunista e um dos principais responsáveis pela Revolução Russa de 1917, deve estar se remoendo no túmulo com negociações pra lá de capitalistas do futebol da Rússia com jogadores brasileiros. Se hoje especula-se contrato de R$ 15 milhões-ano para o lateral-esquerdo Roberto Carlos – ex-Corinthians – com o Anzhi Makhachkala, faz-se necessário recapitular que até os anos 70 prevalecia o amadorismo no futebol daquele país. Quem tinha vocação para jogar futebol teria de conciliá-lo a outra atividade profissional, preferencialmente de prestação de serviço em empresas estatais, que na época mandavam no esporte daquele país. Assim, até 1991, todos estavam em consonância com o regime socialista, que direciona distribuição equilibrada de riqueza e propriedade.

Jogador russo de destaque geralmente se transferia para clubes do lado ocidental da Europa, e se enquadrava às regras do capitalismo. Foi um período de guerra fria entre Rússia e Estados Unidos, pós 2ª Guerra Mundial, quando os soviéticos contavam com Lev Yashin, reconhecido pela Fifa como o melhor goleiro do século passado, o único da posição a conquistar o prêmio ‘Bola de Ouro’ criado pela revista France Football em 1963.

Evidente que aquela indicação jamais poderia ser contestada. Afinal, que outro goleiro recheou a sua biografia com defesas de 150 pênaltis, um deles no Mundial de 1958 na Suécia, na vitória dos soviéticos sobre a Áustria por 2 a 0? Igualmente há relatos não oficiais que ele tenha ficado mais de 100 jogos sem sofrer um gol sequer dos 812 disputados em 22 anos de carreira, vinculado apenas ao Dínamo de Moscou e seleção soviética.

Ainda bem que Yashin descobriu que a modalidade esportiva hóquei no gelo não era a sua ‘praia’ e a trocou pelo futebol no gelado território russo, cujo inverno registra temperaturas de 30 graus negativos. Aí, com 1,85m de altura, boa colocação, confiança na saída da meta, braços abertos e mãos enormes encolhia o ângulo do atacante adversário. E diferentemente da maioria dos goleiros que cai antes do arremate, ficava sempre de pé e mostrava elasticidade no salto.

Essa categoria e o uniforme preto resultaram no apelido de ‘Aranha Negra’. Ele ganhou visibilidade a partir da medalha olímpica de 1956 e principalmente nas quatro Copas como jogador soviético, de 1958 a 1970. Se em 1962 falhou no empate em 4 a 4 com a Colômbia, redimiu-se quatro anos depois, quando foi um dos responsáveis pelo histórico quarto lugar na Inglaterra.

Ao encerrar a carreira em 1971, Yashin tentou treinar juvenis, mas acabou como professor de educação física até 1984, quando teve que amputar uma perna após problema circulatório. Dois anos depois foi vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), e em 1991 morreu por causa de um câncer no estômago.



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Cafu, lateral de quatro Copas

Cafu, lateral-direito de quatro Copas, encerrou seu ciclo na Seleção Brasileira em 2006, na Alemanha, com histórico de 148 jogos. Também foi o último capitão a levantar o caneco. O fato ocorreu em 2002 na competição sediada por Japão e Coréia do Sul.

Cafu foi reserva de Jorginho na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, fato que lhe deu visibilidade internacional e um bom contrato com o Zaragoza da Espanha. Na ocasião o São Paulo, dono dos direitos federativos, procurou se cercar de cláusula que impedisse o retorno dele a um grande clube brasileiro, sem imaginar que o Palmeiras pudesse driblá-la ao proceder triangulação com o Juventude (RS), outro clube parceiro da Parmalat em 1995, co-gestora do futebol de ambos.

Após dois anos no Verdão e como campeão paulista em 1996, o lateral voltou à Europa para jogar no Milan, da Itália, clube que marcou história até o encerramento da carreira. Em 1998, no Mundial da França, ele foi titular absoluto do Brasil.

Cafu ficou marcado pelas passadas largas ao ataque e facilidade para chegar ao fundo do campo. Depois, o cruzamento nem sempre saía com precisão, mas convenhamos que melhorou bastante se comparado ao período em que o fixaram na posição. Pode-se dizer também que correspondia na marcação.

Ele não era originariamente lateral-direito. Quando adolescente teimou em ser escalado como ponteiro-esquerdo, e foi nesta posição que acabou aprovado nos testes para ingressar no time juvenil do São Paulo. E assim chegou ao elenco de profissionais até que o treinador Telê Santana - já falecido – observou o desperdício de se fixar no ataque um atleta com vigor físico invejável, capaz de fazer o vaivém semelhante aquilo que o mineiro Toninho Cerezo fazia nos tempos de Atlético Mineiro, atuando como volante.

Telê foi além: constatou a polivalência de Cafu e passou a improvisá-lo, também, na lateral-direita, na ausência de Zé Teodoro. Trabalhador e paciente, o treinador procurou corrigir a forma de seu jogador alçar bola na área adversária. Assim, aos poucos, em vez de a bola percorrer toda extensão da grande área até sair rente a baliza de escanteio do lado oposto, o discípulo foi aprendendo a colocar um efeito, de maneira que a trajetória direcionasse o atacante para o cabeceio.

Não demorou para que o exaustivo trabalho sobre o citado fundamento tivesse reflexos positivos. Incontáveis vezes o meia Raí explorou sua boa estatura e precisão na jogada aérea de Cafu, um paulistano rejeitado em treinos peneiras de clubes por nove vezes, e que soube aproveitar a chance dada pelo tricolor paulista, onde foi bicampeão da Libertadores em 1992 e 93.

Alguma semelhança com o antigo ponteiro-direito Cafuringa, do Fluminense, resultou no apelido de Cafu para o hoje empresário Marcos Evangelista de Moraes.