Desportistas da 'velha guarda' dividiam opiniões sobre o saudoso árbitro de futebol Roberto Nunes Morgado, quer pela capacidade de conduzir partidas, quer pelo exibicionismo. Ele morreu aos 42 anos de idade em abril de 1989, esquecido e abandonado. Passou os últimos dias de agonia e assistido por uma família missionária alemã, numa casa na Cúria Metropolitana, em São Paulo.
Embora tivesse sido duramente castigado pela AIDS, desconfiava dos resultados dos exames, suspeitando ser vítima de meningite. E assim travou luta de 14 meses contra a doença. Quando apitava era magrelão. Não devia pesar mais do que 50 quilos, e foi se definhando em 1989, quando o seu amigo e ex-presidente do Sindicato dos Árbitros de São Paulo, José Astolphi, disse que ele pesava 28 quilos quando morreu.
Atormentado pela doença, cada dia era mais difícil controlá-lo. Quem supunha que a transferência para Casa Bezerra de Menezes, em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, pudesse acalmá-lo, se enganou. Dava mais trabalho que criança 'birrenta' para os médicos.
Já sem ajuda da família, foi transportado para uma casa especializada em pacientes ainda no bairro da Penha, em São Paulo, mantido pela Curia Metropolitana. E lá se sossegou um pouco ao ser tratado com carinho.
Astolphi esteve ao lado dele naquelas horas difíceis Foi companheiro inseparável que o carregou no colo, deu banho e vestiu as roupas antes do enterro. Os meses afetados pela AIDS foram dramáticos para Morgado, com período de crise depressiva no Hospital Emílio Ribas, na capital paulista, onde ficou hospitalizado e internado ao lado de pacientes terminais.
Morgado foi bissexual, casado e tinha adoração pelos filhos Luciano e Luana. E perguntava com insistência por eles antes da morte. Portanto, se dizem que um bom árbitro precisa necessariamente passar despercebido durante numa partida, ele foi exceção à regra. Como fazia questão de ser 'estrela', abusava de malabarismo com os braços para indicar lances em cobranças de faltas, e soprava o apito com força só pela satisfação de ouvir o som seguir na arquibancada.
No Paulistão de 1978, foi esfaqueado por um de seus auxiliares. Em 1983, quando apitava o jogo entre Vasco e Ferroviario (CE), expulsou os policiais militares do gramado, e a Comissão de Arbitragem da CBF exigiu que fizesse exame de sanidade mental.