Dezenas de vezes você citou a palavra 'zebra' sobre resultado inesperado de um jogo de futebol, mal sabendo que o criador da metáfora foi o saudoso treinador pernambucano Gentil Alves Cardoso, que passou a usar o bordão quando clubes pequenos do Rio de Janeiro ganhavam dos grandes a partir de 1940. Por que zebra? Porque não fazia parte do jogo de bicho. Era uma estranha na jogatina.
Evidente que Gentil jamais poderia prever que a junção verbo e substantivo ‘deu zebra’ transcendesse a bola, e fosse usada invariavelmente em todos os segmentos. E por que o jogador talentoso é chamado de cobra? Outra metáfora inventada por Gentil Cardoso, um frasista por excelência.
Ao exigir que o seu time trabalhasse a bola no chão, dizia que ‘a bola é de couro, o couro vem da vaca, e a vaca gosta de grama; então, jogue rasteiro meu filho’. Também é dele a frase ‘quem se desloca recebe, quem pede tem preferência’.
O oito de setembro passado marcou o 56º ano da morte dele, que não perdeu o bom-humor até internado no Hospital Central da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. 'Doutor, estou entrando na vertical. Veja se não saio na horizontal, porque técnico de futebol não pode trabalhar nessa posição'.
E saiu de lá para o cemitério, deixando uma biografia de migrante negro vitorioso. Foi engraxate, garçom e motorneiro. Nunca foi jogador, mas ingressou na função de treinador do Bonsucesso nos anos 30 do século passado, e quando apitava treino dizia que reservas não ganhavam dos titulares. Se o caldo engrossava, arrumava um pênalti ‘mandrake’ e acomodava a situação. ‘Bola na bunda de time pequeno é pênalti’, brincava.
Seu reino encantado foi o Rio de Janeiro, intercalando passagens pelos grandes clubes. Em 1946, contratado pelo Fluminense, deu um recado aos cartolas logo na chegada: “Se vocês me derem o Ademir (de Menezes), eu lhes darei o campeonato”. Dito e feito. O ex-vascaíno marcou o gol do título contra o Botafogo.
Nos anos 50, treinando o Botafogo, lançou o ponteiro-direito Mané Garrincha. Na época fazia uso de megafone para se comunicar com os jogadores durante os treinos. Em seguida voltou a Recife, em troca de bons contratos, para comandar Sport, Santa Cruz e Náutico. E nos três clubes levantou o caneco. No futebol paulista treinou Ponte Preta e Corinthians. Passou ainda por Nacional do Equador e Sporting de Portugal.