domingo, 27 de setembro de 2026

Onze anos sem o centroavante Kita

Já que a Inter de Limeira está bem próxima do acesso à Série B do Brasileiro, isso nos remete à temporada de 1986, quando da conquista do título inédito do Paulistão. E o protagonista daquela conquista foi o então centroavante Kita com 23 gols, o artilheiro daquela competição, valendo-se no aproveitamento na bola aérea e oportunismo nas conclusões, embora fosse um atleta desprovido de técnica.

Esse próximo três de outubro marca o 11º ano da morte de João Leithard Neto, apelidado de Kita, no Hospital IOT de Passo Fundo (RS), aos 57 anos de idade. Ele lutava contra um câncer no fígado muito agressivo, com desdobramento para outros órgãos. E sofria com problemas de saúde desde 2011.

Inexplicavelmente a vida seleciona algumas pessoas para período de glória, contrastando com continuidade de sofrimento. Em junho de 2011, aos 53 anos de idade, após uma cirurgia para reconstituir os ligamentos do tornozelo esquerdo, uma infecção hospitalar implicou na amputação da parte de seu pé. O quadro foi agravado em decorrência do diabetes.

Naquela conquista de 1986, Kita marcou o primeiro gol da segunda e decisiva partida daquela decisão, quando o seu clube venceu o Palmeiras por 2 a 1, no Estádio do Morumbi. Já o ponteiro-direito Tato marcou o outro gol, ocasião que a equipe era dirigida pelo treinador Pepe. E marcou história no clube ao se enquadrar como o quinto maior artilheiro de todos os tempos com 37 gols.

Após sucesso naquela competição, Kita foi pretendido por Corinthians e Flamengo, e o destino foi o futebol carioca, onde marcou 21 gols em 63 partida. No início de 1988, retornou à Inter de Limeira, e, no segundo semestre, na Portuguesa. A carreira foi estendida no Grêmio, Athlético Paranaense, Figueirense, Esportivo de Bento Gonçalves e Passo Fundo, onde a encerrou em 1995, marcando nove gols em 25 jogos.

Paradoxalmente, o Passo Fundo foi o clube onde iniciou a carreira, aos 17 anos de idade, atuando como meia-direita. Depois teve passagens por 14 de Julho, Criciúma, Esportivo, Guarani de Garibaldi, Brasil de Pelotas e Juventude, onde tornou-se artilheiro do Campeonato de Gaúcho de 1983 com 15 gols. Incontinenti, no Inter (RS), foi campeão estadual, sem contudo brilhar, antes da chegada na Inter de Limeira. Ele também integrou a Seleção Olímpica na conquista da medalha de prata de 1984, em Los Angeles (EUA).



sábado, 19 de setembro de 2026

Roger Silva, de homem gol e treinador de acessos

O histórico do ex-centroavante Roger Rodrigues da Silva, natural de Campinas e hoje treinador - é marcado de extrema curiosidade. Afinal, qual atleta revelado por um clube - como foi o caso dele na Ponte Preta em 2003, e sequência em mais três anos - voltasse a defendê-lo por mais quatro vezes, na condição de empréstimo?

Pois isso ocorreu nas temporadas de 2007, 2012, 2016 e 2020, porém com fase marcante nos primeiros três anos de clube, com faro de gols e confissão que aquele era o seu coração.

Roger, que em janeiro passado completou 41 anos de idade, se despontou como o atacante com presença frequente na área para complemento de jogadas - quer no chão, quer por cima - assim como nas construções de jogadas. Exatamente por isso despertou interesse do São Paulo, que veio buscá-lo justamente no ano que o clube conquistou o título da Libertadores da América.

Todavia, na condição de reserva de nomes como Grafite e Diego Tardelli, as oportunidades foram raras, e assim foi considerado prescindível no elenco, o que facilitou empréstimos a clubes como o Palmeiras, Al Nassr da Arábia Saudita, Sport Recife, Fluminense, Vitória e Guarani até 2010, quando teve a experiência internacional no Kashiwa Reysol do Japão, disputando a segunda divisão, sem contudo se adaptar àquele novo ambiente, tanto que no ano seguinte acabou emprestado ao Ceará.

Curioso é que ele voltou a ter experiência no mercado internacional no Suwon Samsung Bluewings, da Coréia do Sul, em 2014, repetindo a falta de adaptação, e assim foi alternando passagens por clubes médios e grandes do Brasil como Corinthians, Botafogo (RJ), Internacional (RS), Red Bull Brasil e Operário do Paraná.

Em dezembro de 2020, foi contratado pela Inter de Limeira para disputar o Paulistão de 2021. Ao término da competição, anunciou a sua aposentadoria na carreira de atleta, sem que aquilo significasse afastamento do futebol. Incontinente, assumiu o cargo de gerente de futebol do clube, provavelmente sem imaginar que três meses depois fosse assumir interinamente a função de treinador na própria Inter.

A carreira ganhou relevância ao conquistar o acesso do Athletic (MG) à Série B do Brasileiro em 2024, o que permitiu engate na nova função em clubes como Londrina - novamente com acesso à Série B ano passado -, Sport, América Mineiro e agora o Atlético Goianiense.


domingo, 13 de setembro de 2026

Deu zebra, invenção de Gentil Cardoso

 Dezenas de vezes você citou a palavra 'zebra' sobre resultado inesperado de um jogo de futebol, mal sabendo que o criador da metáfora foi o saudoso treinador pernambucano Gentil Alves Cardoso, que passou a usar o bordão quando clubes pequenos do Rio de Janeiro ganhavam dos grandes a partir de 1940. Por que zebra? Porque não fazia parte do jogo de bicho. Era uma estranha na jogatina.

Evidente que Gentil jamais poderia prever que a junção verbo e substantivo ‘deu zebra’ transcendesse a bola, e fosse usada invariavelmente em todos os segmentos. E por que o jogador talentoso é chamado de cobra? Outra metáfora inventada por Gentil Cardoso, um frasista por excelência.

Ao exigir que o seu time trabalhasse a bola no chão, dizia que ‘a bola é de couro, o couro vem da vaca, e a vaca gosta de grama; então, jogue rasteiro meu filho’. Também é dele a frase ‘quem se desloca recebe, quem pede tem preferência’.

O oito de setembro passado marcou o 56º ano da morte dele, que não perdeu o bom-humor até internado no Hospital Central da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. 'Doutor, estou entrando na vertical. Veja se não saio na horizontal, porque técnico de futebol não pode trabalhar nessa posição'.

E saiu de lá para o cemitério, deixando uma biografia de migrante negro vitorioso. Foi engraxate, garçom e motorneiro. Nunca foi jogador, mas ingressou na função de treinador do Bonsucesso nos anos 30 do século passado, e quando apitava treino dizia que reservas não ganhavam dos titulares. Se o caldo engrossava, arrumava um pênalti ‘mandrake’ e acomodava a situação. ‘Bola na bunda de time pequeno é pênalti’, brincava.

Seu reino encantado foi o Rio de Janeiro, intercalando passagens pelos grandes clubes. Em 1946, contratado pelo Fluminense, deu um recado aos cartolas logo na chegada: “Se vocês me derem o Ademir (de Menezes), eu lhes darei o campeonato”. Dito e feito. O ex-vascaíno marcou o gol do título contra o Botafogo.

Nos anos 50, treinando o Botafogo, lançou o ponteiro-direito Mané Garrincha. Na época fazia uso de megafone para se comunicar com os jogadores durante os treinos. Em seguida voltou a Recife, em troca de bons contratos, para comandar Sport, Santa Cruz e Náutico. E nos três clubes levantou o caneco. No futebol paulista treinou Ponte Preta e Corinthians. Passou ainda por Nacional do Equador e Sporting de Portugal.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Ex-meia Neto chega aos 60 anos de idade

Este nove se setembro marca o 60º ano de idade do ex-meia Neto, apresentador de televisão de programa esportivo da TV Bandeirantes. Ele jogou no dente de leite da Ponte Preta e seguiu para o infantil do Guarani, porque sequer quiseram lhe pagar passagens de ônibus de Santo Antônio da Posse - sua cidade natal - ao Estádio Moisés Lucarelli.

Na época, depois de abusar dos lançamentos de rosca, de aplicar dribles elásticos, resmungar com companheiros e fazer o habitual gol de falta, ao voltar para a casa dos pais levou um 'pito' de sua mãe Maria Aparecida dos Santos, a dona Cida, perplexa ao vê-lo sem camisa.

"Ponha a camisa já, menino! Não vê que os fotógrafos estão te esperando", foi a bronca, retrucada logo em seguida: "Que camisa que nada, mãe. Aqui em casa a gente tem que ser assim mesmo, bem à vontade".

Irreverência era marca registrada de Neto, cujas meias invariavelmente ficavam arriadas. Como a maioria dos meninos de 17 anos de idade, ele tinha a mania de espremer espinhas, o cabelo encaracolado caía no rosto e, de personalidade forte, não tinha 'papas' na língua. Aquilo que pensava, falava com naturalidade, mesmo que fosse para o técnico da Seleção Sub-17, como Gilson Nunes.

"Falei pro Gilson Nunes que fosse se danar". E sabe porque tanta irritação? "Ele disse que me substituiu porque eu não estava marcando", justificou. E assim procedia enquanto esteve no Guarani até 1989, quando os seus direitos econômicos foram negociados com o Palmeiras, e posteriormente repassado ao Corinthians.

Quando atingiu a maioridade, Neto começou a ter propensão para engordar e não havia nutricionista que conseguisse controlá-lo. Ele encostava na branquinha de pastel, na feira livre defronte ao Estádio Brinco de Ouro, às quintas-feiras, e saboreava pastéis de todos os tipos.

Como era diferente da boleirada, em 1984 o técnico Carlos Alberto Silva - já falecido - havia terminado a preleção às 14h40, visando jogo do Paulistão, das 16h, no Estádio Brinco de Ouro, e Neto, como se não estivesse preparado para entrar em campo, acompanhou o seu amigo e saudoso jornalista Brasil de Oliveira até o garapeiro, e ambos degustaram dois copos de calda de cana.

Mesmo profissionalizado, jamais esqueceu os seus amigos da categoria de juniores, tanto que frequentava assiduamente os alojamentos do Departamento Amador.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Dez anos sem o centroavante Alcindo, do Grêmio

 O último 27 de agosto marcou o décimo ano da morte do gaúcho Alcindo Martha de Freitas, centroavante que escreveu história como goleador no futebol brasileiro e mexicano. Ele morreu em Porto Alegre (RS), aos 71 anos de idade, vitimado por complicações de seu quadro de diabetes.

Nas Copas do Mundo de 1958 e 1962, quando a Seleção brasileira sagrou-se bicampeã mundial, só a integrava jogadores do eixo Rio-São Paulo dos 22 convocados. Abertura para atletas de outros estados passou a ocorrer em 1966, na Inglaterra, quando o meia Tostão, do Cruzeiro, e Alcindo, do Grêmio (RS), foram convocados, contemplando-se mineiros e gaúchos, respectivamente.

Alcindo era uma máquina de fazer gols, tanto que o histórico de 13 anos pelo Grêmio aponta 264 gols, o maior artilheiro na história do clube, distante do ponta-direita Tarciso, segundo colocado, com 222 gols. Ele também foi decisivo nos Genais. Marcou 13 gols naqueles clássicos, mas erroneamente atribui-se a ele o retrospecto de maior artilheiro nesses jogos, que na prática foi Carlitos, com 42.

Alcindo chegou à Seleção Brasileira como dono da camisa nove, desde que o treinador Vicente Feola convocou 45 jogadores na fase preparatória, até que às vésperas da Copa do Mundo de 1966 definisse os 22. Na estreia contra a Bulgária, na vitória brasileira por 2 a 0, gols de Pelé e Garrincha - ambos em cobranças de faltas - o quarteto ofensivo foi formado por Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho.

Com Pelé contundido, o escolhido para substituí-lo diante da Hungria, na segunda partida, foi Tostão, que marcou o gol de honra do Brasil na derrota por 3 a 1. Na ocasião, Alcindo se machucou e não era permitido substituição. Por causa de lesões de atletas e busca de opções técnicas no grupo, Feola fazia mudanças a cada jogo. Diante de Portugal, com Alcindo vetado, Silva - atacante do Flamengo -, foi o substituto, na derrota brasileira por 3 a 1, gol de Rildo para os derrotados.

Aí, no processo de renovação da Seleção Brasileira, Alcindo foi perdendo espaço e restou o histórico de sete jogos, quatro vitórias, dois empates e uma derrota. Todavia, seu estilo rompedor e destemido continuou a serviço do Grêmio até 1971, quando se transferiu para o Santos. Depois, no México, atuou no Jalisco e América. Voltou ao Grêmio em 1977 e encerrou a carreira na Francana, interior de São Paulo.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Jairzinho, furacão da Copa de 70

 Em 1970, o Galvão Bueno da televisão brasileira era Geraldo José de Almeida, com transmissões de futebol caracterizadas por bordões do tipo 'vamos Brasil, porque a tua fé te empurra'. Identificava Pelé como "craque café"; Rivelino era o "reizinho do parque"; Gerson, o "chuteira de ouro". E quando a bola caía nos pés do atacante Jairzinho, ele estufava o peito, empostava a voz, e o identificava como "furacão da Copa".

O mulato Jair Ventura Filho fez jus ao bordão. Entrou para a história das Copas como jogador a marcar gols em todas as partidas. Foram dois na goleada por 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia; foi dele o gol no apertado 1 a 0 sobre a Inglaterra; marcou na vitória por 3 a 2 sobre a Romênia; repetiu a dose nos 4 a 2 diante do Peru; no 3 a 1 contra o Uruguai; e 4 a 1 na conquista do tricampeonato sobre a Itália.

Portanto, sete gols em seis jogos. E nem por isso foi artilheiro da competição. Muller, da Alemanha, fez dez gols. Vejam que às vésperas daquela Copa Jairzinho era reserva do ponteiro-direito Rogério. Ele só vestiu a camisa sete na Seleção Brasileira. Sua posição originária era ponta-de-lança. Admitiu ser deslocado para a 'ponta' porque o técnico Zagallo abdicou de especialistas nas extremas, tanto que o meia Rivelino jogou com a camisa 11.

Jairzinho nasceu no dia de Natal (25 de dezembro), em 1944, e aos 20 anos de idade teve a responsabilidade de vestir a camisa 10 de Amarildo, e caiu no gosto da galera. Ele explorava as passadas largas e tinha facilidade para finalizar, virtudes determinantes para que fosse relacionado à Copa de 1966, jogando contra Bulgária, Hungria e Portugal. E, na Seleção Brasileira, ficou até 1974, ano que deixou o Botafogo e se transferiu ao Olimpique de Marselha, na França.

Dois anos depois, de volta ao Brasil, sagrou-se campeão da Taça Libertadores da América pelo Cruzeiro, teve passagens por Wilstermann da Bolívia e Portuguesa da Venezuela, ocasião em que estava na torturante estrada da volta do futebol. Mesmo assim, brindou torcedores do Noroeste de Bauru (SP) e Fast Clube (AM) com algumas boas jogadas.

O encerramento da carreira de Jair Ventura Filho foi no Botafogo, em 1981. Depois disso empresariou jogadores, e, devido ao discernimento para avaliá-los, foi o descobridor do ex-atacante Ronaldo 'Fenômeno'. Ele é pai de Jair Ventura, treinador do Vitória (BA).

domingo, 16 de agosto de 2026

Geraldo, morte aos 22 anos de idade

 Foi no dia 26 de agosto de 1976 que o futebol brasileiro ficou chocado com a inesperada morte do talentoso meia Geraldo, do Flamengo, aos 22 anos de idade, no Rio de Janeiro. Ele foi vítima de choque anafilático, provavelmente por reação à algum medicamento composto na anestesia, quando se submetia a cirurgia para extrair as amigdalas.

Se naquela época Geraldo atendeu recomendação médica para que se submetesse a cirurgia, hoje é possível controle clínico de infecções das amigdalas devido aos avanços terapêuticos. Médicos otorrinolaringologistas prescrevem tratamentos através de antibióticos eficazes e seguros, com respostas satisfatórias.

Quando a cirurgia é indicada por causa de prejuízo de respiração, sono, alimentação, fala, ou registro de infecções frequentes, pacientes se submetem previamente a exames pré-operatórios com o anesteriologista. Aí é avaliado o histórico de rejeição a remédios, que se juntam ao diagnóstico sobre aqueles que podem interagir com os anestésicos, para não haver anormalidade.

Geraldo jogou no Flamengo no triênio a partir de 1975, com chegada à Seleção Brasileira. Assim, disputou a Copa América de 1975, e foi considerado promessa à Copa do Mundo de 1978, na Argentina, mas não deu tempo. O defeito incorrigível foi a falta de ambição para finalizar contra metas adversárias. Preferia o passe a companheiro, e isso reflete no retrospecto de apenas 13 gols nas 168 partidas com a camisa do Flamengo.

Mineiro de Barão de Cocais - distante 100 quilômetros de Belo Horizonte -, Geraldo Cleofas Dias Alves foi revelado na base do Flamengo e integrou a geração de ouro do clube comandada por Zico, e corria de cabeça erguida,

Consta do histórico dele o título carioca de 1974, em época que contabilizava-se dois pontos por vitória. Como o Flamengo venceu o América por 2 a 1 e empatou sem gol com o Vasco, chegou a três pontos, em jogo presenciado por 165.358 torcedores. Eis o time da época: Renato; Júnior, Jayme, Luiz Carlos e Rodrigues Neto; Zé Mário, Geraldo e Zico; Paulinho, Édson e Julinho.

Irônico, Geraldo tinha hábito de assoviar quando fazia jogadas de efeito. Logo, o vício lhe rendeu o apelido de Geraldo do Assovio. Zico, entretanto, acrescentou que o hábito de assoviar também era fora de campo, principalmente a música ‘You Song, do cantor Elton John e interpretada pelo saudoso Billy Paul.