sábado, 20 de junho de 2026

Morgado, árbitro exibicionista, foi vítima da AIDS

Desportistas da 'velha guarda' dividiam opiniões sobre o saudoso árbitro de futebol Roberto Nunes Morgado, quer pela capacidade de conduzir partidas, quer pelo exibicionismo. Ele morreu aos 42 anos de idade em abril de 1989, esquecido e abandonado. Passou os últimos dias de agonia e assistido por uma família missionária alemã, numa casa na Cúria Metropolitana, em São Paulo.

Embora tivesse sido duramente castigado pela AIDS, desconfiava dos resultados dos exames, suspeitando ser vítima de meningite. E assim travou luta de 14 meses contra a doença. Quando apitava era magrelão. Não devia pesar mais do que 50 quilos, e foi se definhando em 1989, quando o seu amigo e ex-presidente do Sindicato dos Árbitros de São Paulo, José Astolphi, disse que ele pesava 28 quilos quando morreu.

Atormentado pela doença, cada dia era mais difícil controlá-lo. Quem supunha que a transferência para Casa Bezerra de Menezes, em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, pudesse acalmá-lo, se enganou. Dava mais trabalho que criança 'birrenta' para os médicos.

Já sem ajuda da família, foi transportado para uma casa especializada em pacientes ainda no bairro da Penha, em São Paulo, mantido pela Curia Metropolitana. E lá se sossegou um pouco ao ser tratado com carinho.

Astolphi esteve ao lado dele naquelas horas difíceis Foi companheiro inseparável que o carregou no colo, deu banho e vestiu as roupas antes do enterro. Os meses afetados pela AIDS foram dramáticos para Morgado, com período de crise depressiva no Hospital Emílio Ribas, na capital paulista, onde ficou hospitalizado e internado ao lado de pacientes terminais.

Morgado foi bissexual, casado e tinha adoração pelos filhos Luciano e Luana. E perguntava com insistência por eles antes da morte. Portanto, se dizem que um bom árbitro precisa necessariamente passar despercebido durante numa partida, ele foi exceção à regra. Como fazia questão de ser 'estrela', abusava de malabarismo com os braços para indicar lances em cobranças de faltas, e soprava o apito com força só pela satisfação de ouvir o som seguir na arquibancada.

No Paulistão de 1978, foi esfaqueado por um de seus auxiliares. Em 1983, quando apitava o jogo entre Vasco e Ferroviario (CE), expulsou os policiais militares do gramado, e a Comissão de Arbitragem da CBF exigiu que fizesse exame de sanidade mental.


domingo, 14 de junho de 2026

Adeus ao ex-zagueiro Brito

A morte do então zagueiro Brito neste 11 de junho, aos 86 anos de idade, em decorrência de uma pneumonia, nos remete ao ano de 1970, marcado por duas situações diferentes sobre ele: primeiro a conquista do tricampeonato mundial pela Seleção Brasileira. Logo em seguida, quando emprestado pelo Flamengo - clube que defendeu em 1969 - ao Cruzeiro, se vingou do saudoso treinador Yustrich.

Ainda no Flamengo, Brito se irritou com o comandante por ousar deixá-lo na reserva, mantendo o zagueiro Washington no time titular, enquanto participava de jogos das Eliminatórias àquela Copa do Mundo. Aquilo gerou uma situação conflitante com o comandante e, inconformado, pediu para sair, e foi emprestado ao Cruzeiro.

Aí, após o titulo em 1970, e de volta o Cruzeiro, quando o clube enfrentou o Flamengo, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, na vitória cruzeirense por 3 a 1, ele xingou Yustrich e ainda arremessou a sua camisa na cara dele, em postura que gerou tumulto à beira do gramado, onde o agredido tentou sair do túnel ao encalço dele, mas foi contido por integrantes da comissão técnica e jogadores reservas.

Hércules Brito Ruas, o Brito, dividia opiniões. Para uns destoava entre as 'estrelas' do selecionado brasileiro; outros elogiavam o estilo raçudo e veloz dele, além da soberania no jogo aéreo.

A trajetória foi iniciada no Vasco da Gama em 1958, e dois anos depois passagens por empréstimo no Internacional (RS). Em 1964 ganhou as primeiras oportunidades na Seleção Brasileira, com projeção para futuramente participar de Copa do Mundo, como em 1966, na Inglaterra.

Em 1970, foi considerado o jogador com o melhor preparo físico daquela Copa. Tanto que, 'reza a lenda,' quebrou aparelho de academia ao se exercitar.

Na trajetória clubística, esteve vinculado ao Botafogo (RJ) em 1971, e, num clássico contra o Vasco, deu um soco no árbitro José Aldo Pereira, após a marcação de um pênalti contra o clube que defendia, em agressão que resultou em um ano de suspensão.

Ele jogou no Corinthians em 1974 e Athletico Paranaense na temporada seguinte, Montreal Castors do Canadá, Deportivo Galícia da Venezuela e River-PI. Ao encerra a carreira, arrumou emprego de funcionário público estadual do Rio de Janeiro - sua cidade natal -, em projeto que visava a comercialização de remédios a preços mais baratos, para a população de baixa renda.


domingo, 7 de junho de 2026

Adeus ao atacante Leivinha, aos 76 anos de idade

Em pouco mais de 14 meses morreu o segundo ex-atleta do Palmeiras, vitimado pelas complicações decorrentes do Mal de Alzheimer. Final de março do ano passado foi o então zagueiro Alfredo Mostarda. Agora, neste quatro de junho, morreu o ex-atacante Leivinha, aos 76 anos de idade, sendo que ambos fizeram parte dos tempos do clube batizado de 'Academia Palmeirense', na década de 70 do século passado.

Abri dezenas de páginas na Internet em busca da informações sobre o início da doença dele, que provoca perda da memória, e nada. Isso porque em 2017, em entrevista ao radialista Milton Neves, João Leiva Campos Filho estava lúcido para o detalhamento da carreira, revelando ter marcado gol de cabeça, de fora da área, no goleiro uruguaio Mazurkiewicz, do Atlético Mineiro. Logo, há casos de ex-atletas com perda da memória por tempo bem maior, como o ex-zagueiro Hideraldo Luís Bellini, que conviveu com a doença por 18 anos.

Nem precisava pesquisar a carreira dele pra saber que aos 15 anos de idade já jogava no Linense, transferido à Portuguesa em 1966 para ser o camisa oito e fazer dupla de área com Ivair. Depois, a sequência triunfal no Palmeiras no quadriênio a partir de 1971, e trajetória no Atlético de Madrid, da Espanha.

Quando voltou ao Brasil em 1979, para jogar no São Paulo, lesões no joelho abreviaram a carreira dele aos 29 anos de idade, abrindo espaço para que, anos depois, assumisse a função de analista através do canal SporTV. Como durante a carreira foi vitimado por outras tantas contusões, associando-se àquelas fora do futebol, ele confessou ter se submetido a 18 cirurgias.

Assim, ficou a recordação de um dos maiores cabeceadores do futebol brasileiro de todos os tempos, inclusive marcando gol neste estilo na decisão de título contra o São Paulo, em 1971, quando o saudoso árbitro Armando Marques anulou, com a justificatica improcedente de o jogador ter usado a mão na jogada. Seria o gol de empate que daria o título ao Palmeiras.

Como se vê, cronistas não realçam o drible desconcertante que aplicava, sabe-se lá se foi ele quem criou, ou de quem copiou, de bater na bola com pé, levando-a rapidamente ao outro, em balanço típico que desmontava o marcador. E esse estilo foi copiado pelo ex-meia Paulo César Caju e me encorajou a incansáveis ensaio para colocar em prática no futebol varzeano.


sábado, 30 de maio de 2026

Da Copa do Mundo de 1958, apenas quatro brasileiros ainda estão vivos

Véspera de Copa do Mundo é classificada como oportuna à publicação intitulada 'Os únicos campeões mundiais de 1958 ainda vivos!, do site 'O Curioso do Futebol', assinada por Tiago Cardoso, escrivão de polícia e professor de geografia, quando cita os quatro atletas brasileiros sobreviventes daquela Copa do Mundo, edição da conquista do primeiro título, em competição disputada na Suécia.

De fato, aquela seleção campeã do mundo eternizou Pelé e Garrincha, enquanto daquele grupo continuam vivos apenas o meia-armador Moacyr, atacante Mazola, ponteiro-esquerdo Pepe e volante Dino Sani, o mais idoso deles, que completou 94 anos de idade no último 23 de maio.

Dino foi campeão pelo São Paulo em 1957 e chegou a formar dupla de meio de campo com Roberto Rivellino, no Corinthians. Ele foi titular somente durante a primeira fase da Copa de 1958, e teve carreira marcante também no futebol europeu, especialmente no Milan (ITA), e ainda é lembrado como um dos grandes volantes brasileiros de sua geração, além de ter sido reconhecido como treinador bem-sucedido.

Quanto a Pepe, foi reserva de Zagallo nas edições dos Mundiais de 1958/62. Ele tem 91 anos de idade e teve carreira construída exclusivamente no Santos, ao marcar 405 gols, considerado o segundo maior artilheiro da história do clube, somente atrás de Pelé.

E parte significativa dos gols ocorreram através de cobranças de faltas, com o seu chute forte, que resultou no batismo de 'cachão da Vila'. Por isso ele tem o hábito de citar que é 'o maior artilheiro humano da história santista', já que considera Pelé um fenômeno acima de qualquer comparação. E Pepe teve carreira bem-sucedida como treinador, ao conquistar o título paulista inédito pela Inter de Limeira, em 1986, ano que também foi campeão brasileiro pelo São Paulo.

A história de Mazola, eternizado na Europa como Altafini (José João Altafini) mostra que embora tivesse participado do título brasileiro da Copa do Mundo de 1958, naturalizou-se italiano e disputou a Copa do Mundo de 1962 pela Itália, país de origem de sua família.

Piracicabano, defendeu o clube de sua cidade no quadriênio a partir de 1950 e vai completar 88 anos de idade no próximo dia 24 de junho, enquanto Moacyr foi reserva no Mundial da Suécia, quando defendia o Flamengo. Ele vive no Equador, país onde encerrou a trajetória como jogador.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Adeus ao ex-meia Geovani do Vasco

 O já falecido apresentador de televisão Antônio Abjamra tinha um programa de entrevistas na TV Cultura chamado 'Provocações', e durante o encerramento perguntava ao entrevistado 'o que é a vida'? Pois cabe uma avaliação dos mistérios dela, com base na imprevisibilidade dos momentos vividos pelo ex-meia Geovani Faria da Silva, ídolo do Vasco da Gama nos anos 80 do século passado, morto no último 18 de maio, aos 62 anos de idade, em Vila Velha (ES), vítima de parada cardíaca, após passar mal de forma repentina.

Da felicidade pelas memoráveis atuações no clube cruzmaltino, ele também jogou no exterior pelo Karlsruher da Alemanha, Bologna da Itália, Tigres do México, sem que repetisse as atuações anteriores. De volta ao Brasil, atuou novamente no Vasco e, já na estrada da volta, esteve no Paulista de Jundiaí (SP), XV de Jaú (SP), Linhares (ES), Serra e Vilhavelhense, com carreira encerrada em 2002. Logo em seguida foi eleito deputado estadual pelo Espírito Santo, filiado ao PTB.

Há 20 anos sofreu aquelas dores n'alma que machucam mais que a dor física. Ficou quase um ano em uma cadeira de rodas, pois as pernas ficaram sem coordenação motora, vítima que foi de uma doença chamada polineuropatia, que na literatura médica é uma inflamação de múltiplos nervos das pernas, provocada por diabetes, alcoolismo ou até mesmo hereditária. Assim, fez uso de uma bengala quando o tratamento fisioterápico começou a dar resultados e isso possibilitou que voltasse a andar.

Aos 16 anos, com 1,68m de altura, já se destaca nos juniores da Desportiva de Vitória do Espirito Santo - cidade em que nasceu -, e o Vasco tratou de buscá-lo. Em 1983, foi um dos destaques da Seleção Brasileira sub-20, na conquista do título mundial disputado no México, ocasião que marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre a Argentina, em cobrança de pênalti.

No elenco de profissionais do Vasco jogou ao lado de craques como Romário e Roberto Dinamite, e se destacou pela habilidade, visão privilegiada e exímio cobrador de faltas, com bola sobre a barreira e dificuldade de defesas dos goleiros. Assim, se tornou um dos maiores meias da história do clube,

Em 1988 participou dos Jogos Olímpicos de Seul, Coréia do Sul, conquistando a medalha de prata. Também integrou a seleção principal em 23 partidas e cinco gols.


domingo, 17 de maio de 2026

Mário Sérgio, um craque de temperamento explosivo

O próximo 11 de novembro vai marcar 10º ano do trágico acidente aéreo da empresa Lamia, que transportava a delegação da Chapecoense à Colômbia, provocando a morte de 71 pessoas, com seis sobreviventes. E entre aqueles que perderam a vida estava o ex-jogador Mário Sérgio Pontes de Paiva, que viajava a trabalho pelo canal Fox Sport.

Nascido no Rio de Janeiro em 1950, enquanto atleta foi um meia-atacante habilidoso, porém de temperamento explosivo desde o início da carreira no Flamengo, quando entrou em atrito com o saudoso técnico Yustrich que, após expulsá-lo de um treino, avisou que sob o comando dele não teria mais chances na equipe.

Assim, seguiu para o Vitória em 1971, quando atuava com as meias arriadas e de lá foi para o Fluminense em 1975, já apelidado de 'Vesgo', pela facilidade de olhar para um lado e tocar a bola do outro. Todavia, um atrito com o presidente Francisco Horta implicou em transferência ao Botafogo (RJ), depois Rosário Central (ARG) e negociação com o Inter (RS), como partícipe da conquista do Brasileirão de 1979 de forma invicta.

Lá permaneceu por mais dois anos, transferindo-se ao São Paulo, quando ganhou o apelido de 'o rei do gatilho' pelos tiros dado para o alto, visando assustar torcedores do São José, no Vale do Paraíba, que se manifestavam na saída da delegação são-paulina. Na sequência, divergências com o então treinador José Poy implicaram em desligamento, rumando à Ponte Preta em 1983 e Grêmio, recompensado com a conquista do Mundial de Clubes.

Depois, nova passagem pelo Inter, enquanto no Palmeiras foi flagrado em exame antidoping, num clássico com o São Paulo, com constatação de cocaína na urina, que o deixou suspenso durante seis meses, e perda dos pontos do 'Verdão' no jogo pelo Paulistão.

Ele ainda jogou no Botafogo de Ribeirão Preto, Bellinzona da Suíça e Bahia, quando em jogo contra o Goiás, após o primeiro tempo, surpreendeu a todos ao anunciar o fim da carreira de atleta, para, incontinenti, iniciar na função de treinador, com perfil enérgico, direto e reto, e aquilo provocava rota de colisão. Ele se manteve na função até 2010, no Ceará.

Ainda comandou Vitória, Corinthians, Grêmio, Athletico Paranaense, Figueirense, Botafogo, Portuguesa, Inter e São Paulo, onde ficou marcado por ter sido o único treinador a vetar o então goleiro Rogério Ceni de cobrar faltas.


domingo, 10 de maio de 2026

Dez anos sem o ex-treinador Paulo Emílio


Este 16 de maio marca dez anos da morte do ex-treinador de futebol Paulo Emílio, aos 80 anos de idade, na cidade de São José dos Campos (SP). Ele teve um currículo de pouco mais de 30 anos na função, com passagens em grandes clubes como Santos, Vasco, Fluminense, Botafogo, Santa Cruz, Náutico, Bahia, Vitória, Paysandu, Fortaleza, Goiás e Athletico Paranaense.

Também passou por clube do interior paulista como Guarani e Noroeste de Bauru, além de atuar em Portugal, Japão e Arábia Saudita em meados da década de 90, quando se aposentou. E você sabe como surgiu o de escanteio curto, que consiste em troca de passes de atletas a partir da linha de fundo, e não levantamento de bola à área adversária? Ele foi o 'inventor' desse lance, em jogada que narradores de futebol do passado batizaram de escanteio de ‘mangas curtas’.

Em 1975, no auge da carreira, ele comandou a máquina do Fluminense montada pelo então presidente Francisco Horta, que conquistou a Taça Guanabara na decisão contra o América, quando o Estádio do Maracanã recebeu público de 96.035 pagantes.

A vitória por 1 a 0 na prorrogação foi caracterizada com gol de falta do ex-meia Roberto Rivellino. Eis a equipe da época: Félix; Toninho, Silveira, Edinho e Marco Antonio; Zé Mário, Cléber e Rivellino; Gil, Manfrini e Zé Roberto.

Outra marca na carreira do treinador foi a coragem para lançar garotos, o principal deles o centroavante Careca no Guarani, aos 17 anos de idade, em 1977. Mesma idade foi do lançamento de Carlos Alberto Barbosa, enquanto o lateral Rodrigues Neto subiu com 16 e o lateral-direito Rosemiro aos 18 anos.

Essa atitude de Paulo Emílio tem tudo a ver com o seu surgimento como treinador. Aos 26 anos de idade já comandava equipe e compensava a falta de experiência com aprendizado teórico. Treinava exaustivamente bola aérea ofensiva no primeiro pau, para que alguém a escorasse de cabeça, visando a complementação no segundo pau. De personalidade marcante, tinha habilidade para influenciar amigos e contornar problemas de indisciplina no elenco.

Na adolescência, o sonho dele era jogar futebol profissionalmente, mas foi reprovado em teste no juvenil do Atlético Mineiro. Com a mudança da família ao Rio de Janeiro, chegou a realizar amistosos na zaga do time principal do Bonsucesso, mas teve que encerrar precocemente a carreira por causa da asma.